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abril 24, 2019

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A charge de Carlos Latuff como instrumento da luta dos povos oprimidos

2018/06/02, 23:03


A charge de Carlos Latuff como instrumento da luta dos povos oprimidos

TruthNGO teve uma entrevista com Carlos Henrique Latuff de Sousa ,chargista e ativista

TruthNGO teve uma entrevista com Carlos Henrique Latuff de Sousa ,chargista e ativista

Carlos obrigado pela atenção e a opornidade

Organização dos Direitos Humanos : Quando e como sua defesa dos direitos do povo palestino começou ?

Carlos Latuff : Em 1998 eu estava excitado com essa coisa da internet, de poder fazer contato com o mundo todo, depois eu fiz um desenho pra uma ONG, eu tinha ouvido falar da questão palestina e tinha ouvido falar das ações criminosas de Israel, mas não tinha nenhuma relação próxima . Meu avô era Libanês mas eu não o conheci, ele morreu antes que eu pudesse conhecê-lo então minha família não tem nada da cultura árabe, muçulmana, nada nada. Então eu fiz um desenho pra uma ONG que eu tinha escolhido assim, aleatoriamente, que era Palestinian Center for a Peace and Democracy, em Hamala. Eu mandei pra eles, eles gostaram, era de um palestino sendo baleado pelas costas por um colono israelense, escrito assim "Stop the killing of palestinians" e "Stop the hunting season" , eles fizeram cópias e tal e disseram " Ó Latuff se vc puder bancar sua viagem pra cá porque nós não temos condições de te trazer pra cá, você junta um dinheiro e vem pra cá depois a gente faz um tour contigo pelos territórios ocupados. Eu juntei um dinheiro e fui pra lá, passei 15 dias, visitando Jerusalém, Tel Aviv, e principalmente cidades da Cisjordânia: Ebrom, Hamala, Nablus, não tive condição de chegar na Gaza mas foi uma experiência muito interessante. Então mesmo naquela época não tendo a separação entre Gaza e Cisjordânia, não tendo o chamado muro do Apartheid, o muro da vergonha, mesmo naquela época era muito claro a situação difícil pela qual os palestinos viviam e antes de voltar ao Brasil prometi aos palestinos que conheci lá , principalmente um em Ebrom, falei olha quando eu voltar ao Brasil vou fazer o possível pra denunciar os crimes de Israel e apoiar a causa palestina por soberania, e é o que eu tenho tentado fazer até os dias de hoje.

Organização dos Direitos Humanos : Conte-nos sobre as dificuldades do seu ativismo , você recebeu alguma ameaça ou limitação ?

Carlos Latuff :  Bom em 2005 eu recebi uma ameaça de um Site ligado ao partido Licude, um site chamado Licude Nick, ele publicou um artigo com as minhas charges e tal, fazendo uma espécie de dossiê, onde é que está Israel que não fez nada até agora, Israel devia ter cuidado desse Latuff há muito tempo, de um jeito ou de outro, mas nenhuma dessas campanhas de difamação, de ameaças e tal, não me intimidaram, continuo desenhando sobre a questão palestina até os dias de hoje. Outro tema muito espinhoso no Brasil é o tema relacionado à violência policial, eu não recebi ameaças quando estava no Rio, recebi quando vim a Porto Alegre, uma ameaça de um policial aposentado pelas redes sociais e de uma policial em São Paulo que disse que se eu fosse lá e ela me encontrasse daria um tiro na minha boca, uma coisa parecida. Bom, mas tudo bem. Quando você resolve pisar em calos isso acontece. Hoje, nos dias de hoje, se eu morasse no Rio de Janeiro e desenhasse sobre as milícias, ou sobre criminosos formados por policiais ou ex-policiais talvez eu corresse mais risco nos dias atuais. De um modo geral, a despeito das campanhas de difamação, de toda essa ação de tentar deslegitimar o trabalho da gente, a gente continua fazendo porque é uma questão de princípio.

Organização dos Direitos Humanos : Na sua opinião , o boicote internacional pode ser suficientemente relevante na luta pela liberdade do povo palestino em geral e dos palestinos de Gaza em particular ?

Carlos Latuff : O BDS (The Boycott,Divestment,Sanctions). É, eu acredito que sim. Eu acredito que isso é uma maneira de pressionar o governo de Tel Aviv em relação às Velações dos Direitos Humanos cometidos pelo Estado de Israel quanto aos palestinos e cresce cada vez mais o apoio a essas campanhas de boicote artístico, acadêmico, comercial, eu acho que é uma maneira efetiva mesmo de se pressionar as autoridades Israelenses, e os ativistas costumam dizer que se deu certo quanto ao Apartaide Sul-Africano vai dar certo contra o Apartaide Israelense.

Organização dos Direitos Humanos : Como a comunidade internacional pode se unir para ajudar a Palestina ?

Carlos Latuff :  Quando a gente fala de comunidade internacional a gente tem que tratar da geo-política.
Comunidade internacional é Geo-política. Porque na verdade as nações não trabalham pelos direitos humanos, na verdade o que move as nações não são os direitos humanos, o que move as nações são os interesses comerciais. Então existe todo um discurso quando os Estados Unidos faz ameaças em relação à Síria, diz que a Síria precisa ser democratizada, assim como a Líbia precisava ser democratizada e foi devastada. A Líbia foi destruída mas os negócios do Petróleo vão bem, obrigado. Passaram da mão do Cazafi pra mão dos interesses americanos e europeus. Então eu acredito que as nações só se uniriam se ouvesse algum interesse,se a autoridade palestina tivesse algum tipo de barganha pra oferecer pros países, mas não tem. A autoridade palestina é absolutamente nula, não tem autonomia de absolutamente nada. Israel é o satélite dos interesses americanos naquela região, é um satélite de interesses ocidentais naquela região, é um posto avançado dos interesses colonias naquela região, e exatamente por ter essa ligação tão próxima com os Estados Unidos, a grande maioria dos países prefere não se indispor com Israel, porque podem fechar janelas, portas comerciais, em relação aos Estados Unidos. Israel tem um apoio incondicional dos Estados Unidos, então quando se fala em comunidade internacional é preciso levar em consideração que esse apoio internacional palestino muitas vezes é retórico apenas. Veja por exemplo o caso da Turquia, do Ardogan, que apesar de ter um discurso supostamente Pro-palestina nunca cortou relações diplomáticas com Israel, ou relações militares com Israel e atualmente tem uma relação comercial estreitíssima com Israel em relação ao gás. Então na verdade, eu confio mais em Organizações da Sociedade Civil, essas são organizações mais honestas quando dizem que apoiam a causa palestina, que as nações em si.

Organização dos Direitos Humanos : Qual é o papel das redes sociais sobre este tópico ?

Carlos Latuff : O papel das redes sociais é um papel muito importante em relação a causa Palestina, porque no passado, antes da internet, e principalmente antes dos dispositivos móveis se tinha uma certa dificuldade de documentar os crimes de guerra cometidos por Israel, com exceção obviamente de bombardeios, porque isso é uma coisa mais escancarada. Mas por exemplo, essas violações do dia-a-dia como atingir viaturas da imprensa deliberadamente por tropas de Israel, ambulâncias, equipe médica como foi o caso agora, ontem, em Gaza quando uma enfermeira voluntária de 21 anos foi assassinada por um snaiper israelense. Esse tipo de coisa no passado você dependia única e exclusivamente da imprensa internacional. Hoje em dia, os próprios palestinos, sejam as organizações, as Ongs, ou mesmo organizações governamentais ou mesmo cidadãos comuns, de posse de celulares, conseguem registrar não só os crimes, os abusos cometidos por Israel, não só o cotidiano de opressão de Apartaide, mas também consegue documentar a resistência, e a resistência da Palestina não se dá tão somente com as pedras, as armas, mas ela se dá também continuamente, ela se dá de uma série de maneiras. Então hoje, com as redes sociais, os palestinos conseguem ter esse protagonismo de produzir o seu próprio material, de ser sua a própria mídia, e eu acho que isso também contribui bastante pro esclarecimento da situação lá, pro conhecimento do que está acontecendo lá a partir dos próprios palestinos.

Organização dos Direitos Humanos : Como você se sente quando as pessoas usam seus charges para protestar ou para divulgar algo?

Carlos Latuff : Bom eu costumo dizer que o papel da charge é originalmente editorial, ou seja, ilustrar artigos em jornais, em revistas, então basicamente o papel do chargista é editorial. Quando você tem uma charge que transcende esse papel, que vira um poster na mão de manifestantes, em qualquer parte do mundo, seja em favor dos palestinos ou em favor de uma outra causa relevante, você está transcendendo, você está ultrapassando esse papel estabelecido da charge, você está assumindo o papel da arte, o papel transformador, o papel que movimenta as consciências das pessoas, os olhares, então toda vez que vejo manifestante em qualquer parte do mundo levando seja na primavera árabe no Egito, seja na Turquia, durante os protestos de desembargue lá em Istambul, seja em relação a violações contra os direitos humanos, seja na questão palestina, eu sinto que a minha charge deixa de ser apenas uma imagem editorial e passa a ser um instrumento de luta desses povos e esse tipo de situação me dá a certeza de que estou cumprindo esse meu papel histórico como chargista.

Carlos fiquei honrada e privilegiada de ter entrevista você

obrigado

 

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